A Roberta abriu o WhatsApp numa segunda-feira cedo e viu a mensagem do Ricardo: aviso de demissão, último dia no fim do mês. Ricardo era representante externo havia mais de uma década. Conhecia cada comprador da carteira pelo nome, sabia o histórico de cada pedido, conduzia as negociações pelo próprio celular — e boa parte disso nunca tinha entrado no CRM da empresa.

O primeiro pensamento dela não foi sobre processo seletivo. Foi: quanto dessa carteira vai junto com ele?

Nas primeiras 72 horas após o aviso, três movimentos precisam acontecer em sequência: mapear quem está em negociação ativa com ele agora, garantir que a próxima comunicação com esses clientes saia da empresa — não do representante — e fazer o handoff pessoal nos casos de maior risco. Não é questão de velocidade por velocidade: o Ricardo tem 30 dias de aviso prévio para trabalhar a carteira como bem entender. E ele começa antes de você reagir.

Por que as primeiras 72 horas definem o resultado

Durante todo o aviso prévio, o representante ainda tem acesso aos clientes. Nesse período, ele pode compartilhar o contato pessoal com os compradores mais próximos, sinalizar — direta ou indiretamente — que vai trabalhar de forma independente, retardar a atualização de oportunidades abertas no CRM e fazer suas rodadas de despedida antes de a empresa fazer qualquer contato institucional.

Essas 72 horas são o único momento em que os clientes ainda não receberam nenhum sinal do Ricardo sobre a saída — o único momento em que a empresa pode chegar primeiro. Cada hora perdida aqui é hora que o representante usa antes de você.

O que torna essa transição mais crítica numa distribuidora

Distribuidoras têm características específicas que amplificam o risco quando um representante externo sai.

Ciclo de compra longo. Em muitos segmentos — alimentos, bens de consumo, insumos industriais — a compra não se fecha numa semana. Um cliente perdido agora pode não ser recuperável por meses. Quando não há protocolo de transição, a empresa só percebe o buraco quando o novo representante tenta fazer contato e descobre que o comprador "já tem fornecedor".

O representante é o rosto da empresa. Muitos compradores tratam o representante como se ele fosse a empresa. A relação de confiança está com ele, não com o CNPJ. Isso é uma vulnerabilidade estrutural que a saída expõe — e que a empresa não consegue consertar depois que o representante já fez suas despedidas.

O CRM não reflete a realidade. Boa parte das negociações ativas existe no celular do representante, no e-mail pessoal, em conversas de WhatsApp. O que está no CRM é o passado — e, frequentemente, um passado incompleto. Pedir a lista de clientes "ativos" ao CRM, nessa situação, não diz o que você realmente precisa saber.

Os três movimentos das primeiras 72 horas

Antes das 24 horas — mapear o estado real da carteira

Antes de qualquer comunicação com cliente, você precisa saber o que existe de fato. Puxe do CRM tudo que teve atividade nos últimos 90 dias. Depois chame o Ricardo pessoalmente e pergunte diretamente: "Quais clientes estão em negociação agora? O que você prometeu pra cada um?" Documente ao vivo. Não confie em memória — nem na dele, nem na sua.

A partir dessa conversa, classifique:

  • Críticos: negociação ativa, proposta em aberto, cliente com pedido recorrente de alto volume
  • Importantes: relacionamento frequente, sem negociação ativa no momento
  • Estáveis: compram com regularidade, baixo risco imediato

Os críticos precisam de ação nas próximas 48 horas. Os importantes precisam de uma comunicação da empresa ainda nesta semana. Os estáveis podem aguardar um contato estruturado no handoff formal.

Entre 24h e 48h — a comunicação sai da empresa, não do representante

Este é o movimento mais importante do protocolo.

Você — a gerente, não o Ricardo — entra em contato com os clientes críticos. A mensagem não precisa mencionar demissão. O que ela precisa transmitir é continuidade: "Estou fazendo contato pessoal para garantir que não haja nenhuma interrupção no atendimento à sua conta."

O objetivo não é anunciar nada. É ancorar o relacionamento na empresa antes que o Ricardo faça seus telefonemas de despedida. Quando o cliente recebe primeiro a ligação da gerente, a narrativa da transição pertence à empresa. Quando recebe primeiro do Ricardo, a narrativa pertence ao Ricardo.

Até 72h — o handoff nos casos de maior risco

Para clientes com negociação em andamento ou com histórico de volume relevante, uma ligação ou reunião precisa acontecer com o Ricardo e você presentes.

Nessa conversa, você apresenta o novo contato (ou deixa claro quem assume temporariamente), as oportunidades abertas são documentadas ao vivo — com o cliente confirmando os termos — e o representante passa formalmente o contexto. Não "resume o que lembra": registra o que existe, com você presente para confirmar.

Essa documentação feita ao vivo, com o cliente e a gerência presentes, é o que garante que a negociação não recomeça do zero quando o Ricardo sair.

O que o Nível 3 do SC7N tem a ver com isso

O protocolo das 72 horas é gestão de crise. O que resolve o problema antes de ele acontecer é o N3 — Estruturação do Processo Comercial.

Quando o N3 está em operação na distribuidora, as colunas do CRM são estruturadas para que oportunidades, histórico e compromissos com o cliente pertençam ao sistema da empresa — não ao caderno do representante. Os SLAs definem que nenhuma negociação fica sem atualização registrada por um período além do acordado. Os critérios de passagem entre etapas garantem que outra pessoa consegue assumir qualquer oportunidade de onde ela estava, sem recomeçar do zero.

Quando o N3 está montado, a demissão de um representante vira questão de calendário, não de crise. Quando não está, cada saída leva um pedaço da memória comercial da empresa. Parte volta com o novo representante. Parte nunca volta.

"A carteira que vai embora com o representante não saiu quando ele pediu demissão. Saiu no dia em que a empresa decidiu que o relacionamento com o cliente era responsabilidade dele — e não do processo."

Perguntas que chegam nesse momento

Devo dispensar o representante imediatamente quando ele pede para sair?

Nem sempre. Se o representante tem relacionamentos significativos e a empresa não tem os dados da carteira estruturados no CRM, a dispensa imediata pode acelerar a perda. É mais seguro mantê-lo pelo aviso prévio enquanto a empresa estabelece contato direto com os clientes — e, se necessário, retirar o acesso a sistemas internos. A decisão depende do nível de risco da carteira e do histórico de comportamento dele.

Como abordo os clientes sem parecer que há algo errado?

Enquadre como atenção proativa à conta, não como comunicado de mudança. "Estou entrando em contato pessoalmente para garantir que seu atendimento continue sem nenhuma interrupção." O cliente quer estabilidade. Se a empresa oferece isso com clareza, a maioria aceita a transição sem fricção.

E se o CRM não estiver atualizado e eu não souber o estado real da carteira?

É o cenário mais comum. A primeira ligação vai para o próprio representante: "Preciso de uma lista completa de quem você está trabalhando agora e em que ponto está cada um. Preciso hoje, não no fim do mês." Se ele resistir, isso já é um sinal de risco — não razão para esperar.

Esse protocolo funciona se a empresa não tem processo comercial estruturado?

Funciona para conter o dano imediato. Mas o protocolo das 72 horas é medicina de emergência. O N3 do SC7N é a prevenção — é o que garante que a próxima demissão não seja mais uma emergência.

Mentoria Vértice

Sua carteira não pode depender de quem representa ela

O Nível 3 do SC7N estrutura o processo comercial da distribuidora de forma que oportunidades, histórico e negociações pertençam à empresa — não à saída de qualquer representante. Quando o processo está montado, uma demissão vira questão de calendário, não de crise.

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